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Planilha de rebalanceamento: como montar a sua (e quando ela deixa de dar conta)

Por Artur Brasil · Atualizado em 20 de outubro de 2026 · 9 min de leitura

Uma planilha de rebalanceamento por aporte precisa de três abas: a carteira (o que você tem), as metas por classe (o que você quer ter) e o aporte (quanto comprar de cada ativo). A conta central é uma só: valor-alvo menos valor atual, nunca abaixo de zero, repartido entre o que está abaixo do alvo. Aqui você vê a estrutura coluna por coluna, com as fórmulas e um exemplo numérico. Não há arquivo para baixar: você monta a sua seguindo as colunas.

A ideia vem de um princípio simples. A Vanguard orienta direcionar as entradas de dinheiro (aportes, dividendos, juros) para as classes abaixo do peso. É a visão de uma gestora, e é exatamente o que a planilha faz: o aporte vai para quem está abaixo da meta, e ninguém vende nada.

Em resumo
  • A conta central é valor-alvo menos valor atual, nunca abaixo de zero, repartida entre as classes que estão abaixo do alvo.
  • A planilha tem três abas: a carteira, as metas por classe e o aporte. Cada uma usa poucas fórmulas.
  • No exemplo de R$ 2.000, renda fixa recebe R$ 1.142,86 e exterior recebe R$ 857,14, sem vender nada.
  • ROUNDDOWN arredonda as cotas para baixo, para não comprar fração que o ativo não permite.

O que a planilha precisa fazer?

Quatro coisas, nesta ordem:

  1. Somar o valor atual de cada ativo e de cada classe.
  2. Calcular o valor-alvo de cada classe depois do aporte.
  3. Descobrir quanto falta em cada classe e repartir o aporte.
  4. Dentro de cada classe, repetir a conta entre os ativos e transformar em cotas inteiras.

Se você ainda não definiu as metas por classe, comece por como definir a alocação entre ações, FIIs, renda fixa e exterior. A planilha executa uma decisão que já foi tomada; ela não toma a decisão.

Como organizar as abas e as colunas?

Aba 1: Carteira

Uma linha por ativo.

ColunaConteúdoFórmula ou origem
AAtivo (código)Digitado
BClasse (ex.: Ações Brasil, FIIs, Renda fixa, Exterior)Digitado; sempre o mesmo texto para a mesma classe
CQuantidadeDigitado
DPreço atualDigitado, ou GOOGLEFINANCE (veja os limites mais abaixo)
EValor atual=C2*D2
FMeta dentro da classe (%)Digitado; os ativos de uma classe devem somar 100%

Um caso especial: renda fixa, caixinhas e fundos costumam ser acompanhados pelo valor total que vale hoje, não por quantidade e preço. Para esses, digite o valor total direto na coluna E e deixe C e D em branco.

Aba 2: Metas

Uma linha por classe, mais uma célula para o aporte do mês.

ColunaConteúdoFórmula
AClasseDigitado (igual ao da aba Carteira)
BMeta da classe (%)Digitado; a soma da coluna deve dar 100%
CValor atual=SUMIF(Carteira!B:B; A2; Carteira!E:E)
DPeso atual=C2/C$7 (com o total na linha 7)
EValor-alvo depois do aporte=B2*(C$7+B$10), com o aporte do mês em B10
FFalta=MAX(0; E2-C2)
GAporte da classeveja abaixo

SUMIF soma os valores de um intervalo que atendem a um critério. Aqui, ela soma o valor dos ativos cuja classe é a da linha. As fórmulas usam os nomes em inglês (SUMIF, MAX, ROUNDDOWN, IF, SUM). Se o seu programa estiver em português, troque: no Excel, SUMIF vira SOMASE, MAX vira MÁXIMO, ROUNDDOWN vira ARREDONDAR.PARA.BAIXO, IF vira SE e SUM vira SOMA; no Google Planilhas, a ajuda lista SOMASE. O separador de argumentos (vírgula ou ponto e vírgula) também depende da configuração do programa.

A coluna G tem duas situações. Se a soma da coluna F (=SUM(F2:F5), em F7) for maior ou igual ao aporte, cada classe recebe a sua parte proporcional do que falta:

=B$10*F2/F$7

Se a soma for menor que o aporte, todo mundo já está na meta ou acima dela. O que sobra é repartido pela meta de cada classe. Uma fórmula que cobre os dois casos:

=IF(F$7>=B$10; B$10*F2/F$7; F2+(B$10-F$7)*B2)

O B2 aqui é a meta como fração (0,40 para 40%).

Aba 3: Aporte

Uma linha por ativo, por classe. Para cada classe, repita a mesma lógica da aba Metas, agora dentro dela.

ColunaConteúdoFórmula
AAtivoReferência à aba Carteira
BValor atualReferência à coluna E da Carteira
CValor-alvo=meta do ativo × (valor atual da classe + aporte da classe)
DFalta=MAX(0; C2-B2)
EValor a aportarproporcional ao que falta, limitado ao aporte da classe
FCotas=ROUNDDOWN(E2/preço; 0)
GGasto real=F2*preço
HSobra=E2-G2

ROUNDDOWN arredonda para baixo, em direção a zero, e com zero casas devolve o inteiro. É o que impede de "comprar" 7,14 cotas quando só dá para comprar 7. Para ativos que aceitam fração, troque o zero pelo número de casas que a corretora permite.

Como fica a conta com números?

Exemplo ilustrativo: carteira fictícia e valores inventados.

Você tem R$ 50.000 em quatro classes e vai aportar R$ 2.000.

Passo 1. Novo total: 50.000 + 2.000 = R$ 52.000.

Passo 2. Valor-alvo e falta por classe (valor-alvo = meta × 52.000; falta = alvo − atual, mínimo zero):

ClasseMetaAtualPeso atualValor-alvoFalta
Ações Brasil40%R$ 21.00042,0%R$ 20.8000 (passou R$ 200)
FIIs20%R$ 11.00022,0%R$ 10.4000 (passou R$ 600)
Renda fixa30%R$ 14.00028,0%R$ 15.600R$ 1.600
Exterior10%R$ 4.0008,0%R$ 5.200R$ 1.200

Passo 3. Repartir o aporte. A soma do que falta é 1.600 + 1.200 = R$ 2.800, maior que os R$ 2.000. Cada classe abaixo do alvo recebe a parte proporcional:

  • Renda fixa: 2.000 × 1.600 ÷ 2.800 = R$ 1.142,86
  • Exterior: 2.000 × 1.200 ÷ 2.800 = R$ 857,14

Passo 4. Conferir o resultado.

ClasseAntesDepoisMeta
Ações Brasil42,0%40,4%40%
FIIs22,0%21,2%20%
Renda fixa28,0%29,1%30%
Exterior8,0%9,3%10%

(Depois = ações R$ 21.000, FIIs R$ 11.000, renda fixa R$ 15.142,86, exterior R$ 4.857,14; total R$ 52.000.)

Passo 5. Descer para os ativos. Suponha que a classe Exterior tenha dois ETFs fictícios, A (meta 60% da classe, atual R$ 2.000) e B (meta 40%, atual R$ 2.000). Com o aporte da classe, o total dela vai a R$ 4.857,14:

  • A: alvo 0,60 × 4.857,14 = R$ 2.914,28; falta R$ 914,28
  • B: alvo 0,40 × 4.857,14 = R$ 1.942,86; já tem R$ 2.000, falta zero

A soma do que falta (R$ 914,28) é maior que o aporte da classe (R$ 857,14), então todo o valor vai para A. Com a cota a R$ 120: 857,14 ÷ 120 = 7,14, e ROUNDDOWN dá 7 cotas, R$ 840. Sobram R$ 17,14, que ficam para o próximo mês.

Um aporte não zera o desvio; ele aproxima. Nenhuma classe precisou ser vendida.

Peso atual × meta antes e depois do aporte de R$ 2.000

Antes

Ações Brasilmeta 40%
42,0%
FIIsmeta 20%
22,0%
Renda fixameta 30%
28,0%
Exteriormeta 10%
8,0%
0%10%20%30%40%50%
HojeMeta

Depois do aporte de R$ 2.000

Ações Brasilmeta 40%
40,4%
FIIsmeta 20%
21,2%
Renda fixameta 30%
29,1%+ R$ 1.142,86
Exteriormeta 10%
9,3%+ R$ 857,14
0%10%20%30%40%50%

Com que frequência devo mexer na planilha?

A cada aporte, você só preenche o valor do aporte e atualiza os preços. Rebalancear com menos frequência não é pior: segundo a Vanguard, rebalancear uma vez por ano se mostrou mais eficiente que trimestral ou mensal em períodos de volatilidade alta. A gestora também descreve o rebalanceamento por gatilho, disparado quando a carteira se afasta da meta em certos pontos percentuais, como 1%, 5% ou 10%. E lembra que o objetivo é manter o risco alinhado à sua tolerância, não maximizar retorno. Uma coluna extra na aba Metas, com a diferença entre peso atual e meta, mostra quando o desvio passou do limite que você escolheu.

Quando a planilha deixa de dar conta?

Ela funciona bem com poucas classes, ativos em reais e a mesma rotina todo mês. Os pontos em que costuma quebrar:

  • Preços. GOOGLEFINANCE exige a bolsa e o código do ativo, e a própria ajuda do Google avisa que as cotações não vêm de todos os mercados e podem ter atraso de até 20 minutos. Para fundos, renda fixa e ativos sem cotação, o preço volta a ser digitado.
  • Sobras entre classes. Se uma classe não consegue gastar a sua fatia (a cota é cara, ou todos os ativos dela já passaram da meta), o valor precisa ir para outra classe. A planilha acima deixa essa redistribuição para você fazer à mão.
  • Lotes e preço máximo. Ativos negociados em múltiplos de 100 cotas, ou que você só quer comprar abaixo de certo preço, exigem regras em cada linha. Veja lote padrão e mercado fracionário na B3.
  • Duas moedas. Dólar e real na mesma carteira pedem uma célula de câmbio e a conversão de cada valor antes de somar.
  • Histórico. A planilha mostra o hoje. Saber o que você comprou, quando e a que preço médio vira outra aba, outra fórmula, outro risco de erro de digitação. Sobre isso, veja como calcular o preço médio.
  • Escala. Cada classe, ativo ou regra nova é uma fórmula nova. Um erro numa referência (A:A no lugar de B:B) muda o resultado sem aviso.

Se você chegou a esse ponto, o Allocta faz exatamente essa conta por aporte, sem vender: metas por classe e por ativo, redistribuição de sobras, lotes e duas moedas. O modelo acima continua útil para entender o que a conta faz.

Perguntas frequentes

Existe um modelo de planilha pronto para baixar?

Não aqui. A estrutura está descrita por inteiro, com abas, colunas e fórmulas, para você montar no programa de planilhas que já usa. Os nomes e os separadores das funções podem mudar conforme o idioma do programa.

Qual fórmula calcula quanto aportar em cada ativo?

Valor-alvo menos valor atual, com mínimo de zero, repartido proporcionalmente entre quem está abaixo do alvo. Em planilha: =MAX(0; alvo-atual) e depois aporte × falta ÷ soma das faltas.

Preciso vender para rebalancear?

Não necessariamente. Uma alternativa é direcionar os aportes para as classes abaixo do peso. Vender pode gerar imposto; veja IR na venda de ações e FIIs.

Dá para ter o preço atualizado sozinho na planilha?

Em parte. GOOGLEFINANCE busca cotações, mas exige a bolsa e o código e não cobre todos os mercados; as cotações podem ter até 20 minutos de atraso.

Com que frequência rebalancear?

Não há número único. A Vanguard aponta tanto a frequência (anual como mais eficiente em períodos de volatilidade alta) quanto o gatilho por desvio em pontos percentuais. A escolha é sua; escreva a regra e siga.

Fontes

Conteúdo educativo, não é recomendação de investimento.

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Artur Brasil

Artur Brasil

Investidor, apaixonado por finanças e mercado financeiro. Escreve para quem investe todo mês e quer entender o porquê de cada decisão. Também desenvolve o Allocta.

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